A eleição da Câmara, prevista regimentalmente para agosto, passou a ser tratada como um ponto sensível na estratégia política do prefeito. Na avaliação de aliados, Pazolini consideraria necessário adiar a votação para dezembro. Ele estaria de olho no cenário pós-eleições gerais. Em agosto, caso confirme o projeto de disputar o Governo do Espírito Santo, ele já não seria mais o prefeito, pois até a primeira semana de abril deverá renunciar ao cargo para disputar o pleito de 2026, como prevê a legislação eleitoral. Mesmo com a vice-prefeita Cris Samorini sendo sua aliada e alçada ao comando do Executivo, Lorenzo teria receios de que os parlamentares não seguissem sua orientação.
Já em dezembro, no cenário imaginado pelo próprio grupo político, uma eventual vitória no governo estadual ampliaria o peso político do prefeito para influenciar diretamente o processo na Câmara. A hipótese, considerada precipitada por interlocutores do meio político, seria a de que Pazolini chegaria ao Palácio Anchieta e utilizaria o peso institucional do cargo, além da influência da máquina administrativa, para enfrentar adversários políticos dentro da Câmara.
A revolta de Pazolini estaria ligada ao fato de os vereadores terem formado um bloco sem a participação ou aval das investidas da prefeitura. Dos 21 vereadores da Casa, 16 parlamentares de diferentes espectros políticos se uniram e formaram o chamado G16, grupo que estaria disposto a resistir ao desejo do prefeito e eleger alguém com maior independência.
É nesse contexto que o áudio revela um tom duro na conversa com o vereador. Em determinado momento, Pazolini afirma:
“Eu não vivo dessa porra, não preciso disso aí para nada. Agora nós vamos cair para dentro e só vai ficar um vivo. Até hoje eu não perdi nenhuma.”
A declaração é seguida de uma resposta cautelosa de Neves, que tenta reduzir o confronto:
“Não, mas é dois que não vivem da política, prefeito. Tanto o senhor quanto eu.”
O prefeito insiste no tom de enfrentamento e reafirma que não admite derrota política:
“Então nós vamos cair para dentro. Eu não perdi e não vou perder. Tenho certeza.”
A ameaça se torna ainda mais grave quando o chefe do Executivo municipal menciona o peso institucional até do Governo do Estado, cargo que sequer ocupa e que ainda depende do crivo do eleitor. Antes mesmo de qualquer disputa eleitoral, da qual pode nem sair vitorioso, a fala já projeta uma postura condenável ao sugerir que essa estrutura pública poderia ser usada contra o parlamentar caso ele mantenha posições divergentes dentro da disputa pela presidência da Câmara:
“Você não perde não, porque vai ter o governador contra você. Aí você não vai aguentar.”
Em outro momento, a conversa revela tentativa de articulação para alinhar votos e construir uma composição política previamente negociada.
“Liga para o Juscelino, faz uma chamada, vocês três com o Erick. Alinha e nós vamos compor.”
Dalto reage dizendo que não pode falar em nome de outros vereadores:
“Eu não vou falar por vereador não. Tem um monte de vereador que precisa conversar com ele também.”
O prefeito insiste que o vereador deveria assumir a articulação como candidato à presidência da Casa:
“Você vai falar como o cara que quer ser presidente. Você não quer ser presidente?”
A resposta de Neves demonstra desconforto com o ambiente de pressão:
“Talvez… acho que estou desistindo.”


