Entrevista – Wilson Meirelles
Um biólogo a serviço da vida
Imagine um profissional ser presenteado com a nobre missão de proteger a criação divina. Estar sempre de prontidão para sair de casa, a qualquer hora do dia, quando acionado. Exercer seus vocacionados instintos e virtudes de um humano aventureiro, envolto em seus conhecimentos acadêmicos. Esforços diários, em totalidade pelo ano inteiro, sempre disposto a se doar de corpo e alma a um projeto de vida – não apenas profissional ou academico. Me refiro ao Wilson Luiz Chevitarese Meirelles, também conhecido pela alcunha “Tio Wilson”, que atua em solo Espírito-Santense em defesa do ambiente marinho com excelência, não apenas sob o manto de biólogo e ambientalista mas também como cidadão, um Militante Ambiental.
Wilson Meirelles compõe a diretoria do Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos – também designado pela sigla IPRAM – na qualidade de Secretário.
Supervisor de Projetos e Coordenador do Monitoramento de Praias dos trechos sob responsabilidade do instituto, esse profissional oferta conforto e solidariedade às espécies animais marinhas e silvestres que se encontram em sofrimento, situação muitas vezes causada pelas ações de negligências diárias de nossa sociedade, relacionadas ao comportamento humano que não se reconhece como parte do Todo e da natureza.
O ser humano e suas atitudes inconsequentes agravantes a cada dia degradam mais o nosso planeta habitável, afetando os ciclos naturais no meio ambiente e consequentemente as espécies animais, sem se importar com o futuro das próximas gerações.

E nesse contexto, temos “Tio Wilson”, que acorda antes do sol diariamente para orquestrar as equipes de campo que percorrem as praias em busca de animais encalhados e vestígios de tartarugas se reproduzindo, na forma de rastros na areia. Adicione a essa agenda as ações de educação ambiental, em sua maioria voltadas ao público infantil, bem como as atividades burocráticas inerentes ao trabalho, e temos aqui um biólogo dedicado de corpo e alma a nadar contra a correnteza e despertar seus semelhantes para a necessidade de nos reconectarmos à mãe-natureza.
Na sede do IPRAM, edificada com labuto, tendo como vizinha a atlântica Praia do Recifes, tenho acompanhado obras cada vez mais admiráveis em benefício dos pacientes ali atendidos. As instalações do IPRAM seguem evoluindo para atender com prontidão e qualidade as demandas de resgates de debilitados animais marinhos e silvestres. Tantas espécies afetadas, requerendo socorro, estudos, acompanhamento, reabilitação, cuidados clínicos, medicação, exames, alimentação e fortalecimento até o momento da libertação, o retorno gratificante à Mãe Natureza.
Vislumbro um potencial gigantesco do nosso Estado do Espírito Santo como a locomotiva de uma transformação cultural de Militância Ambiental a nível nacional. Para isso, é preciso sonhar com a unificação das ações entre o Governo do Estado, na pessoa do Governador José Renato Casagrande, a pessoa do Secretário de Meio Ambiente Felipe Rigoni e suas equipes da SEAMA, o IEMA, os militares da Marinha do Brasil, a Policia Militar Ambiental (BPMA), os servidores públicos nas 78 Prefeituras Municipais e suas Secretarias Municipais de Meio Ambiente, com ênfase da Região Metropolitana da Grande Vitória, que concentra o maior potencial poluidor e com maior impacto ao ambiente natural. Essa nova cultura precisa escutar os cientistas exemplares, precisa ser impulsionada pelas gestões de Cariacica, Viana, Fundão, Guarapari, Serra, Vitória e Vila Velha – onde o IPRAM está sediado. É preciso ofertar estruturadamente uma revisão educacional, propondo a inserção acadêmica dessa nova cultura ambiental a ser cultivada nas cidades, se espalhando nos lares, nas famílias, no comércio, indústrias e setores produtivos.

Você sempre gostou de animais marinhos? Qual a sua relação com o mar?
Desde que eu me entendo por gente eu gosto de bichos, de natureza, de floresta, de montanha, de mar. Por toda a minha vida sempre fui muito ligado a essas questões. Como eu morava em uma cidade no interior do continente, em Minas Gerais, o máximo que eu conseguia de aproximação dos bichos era pelo rio Paraibúna, que cortava nossa cidade e desaguava no Paraíba do Sul, com sua foz localizada em Campos (RJ). O máximo que eu conseguia me aproximar dos animais aquáticos era nesse ambiente. E das lembranças que eu tenho de visitar a praia, desde molequinho, era a de ficar parado muito tempo observando e manipulando as conchas. Nunca fui aquela criança que gostava de fazer castelinho de areia não, eu brincava é de encher meus baldinhos de concha. Minha relação com o mar vem dessas visitas ao litoral, desde a minha primeira memória de pisar na água do mar e não querer voltar mais para casa.
O Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos – IPRAM atua ao lado de um projeto de referência nacional, que é o Projeto Tamar, além de estabelecer parcerias com entidades privadas e governamentais. Como se desenvolve um trabalho dessa magnitude, ao monitorar toda a costa capixaba?
Aqui no litoral do Espírito Santo, juntamente com outras instituições, o IPRAM compõe o Projeto de Monitoramento de Praias da Petrobras nas bacias de Campos e Espírito Santo, cuja sigla é PMP-BC/ES, no qual se tornou responsável pelo monitoramento de praias em Conceição da Barra, Aracruz, Fundão e Serra. Através desse trabalho, a gente monitora ao longo dos 365 dias do ano toda a faixa de praia de nossos trechos em busca de animais marinhos vivos ou mortos e ocorrências reprodutivas de quelônios que utilizam nossas praias para a postura de seus ovos.
Esse projeto é realizado pela Petrobras em atendimento a uma condicionante do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo IBAMA. Ao longo do litoral inteiro nós temos várias instituições trabalhando com reabilitação, necrópsia e monitoramento das praias, com o intuito de avaliar a presença de animais em cada trecho, para a gente entender o que está acontecendo com o mar.
Então nós temos que unir esforços mesmo, trabalhar em sinergia em prol do mesmo objetivo, que é conservar os bichos. Nós temos uma costa imensa, gigante. Ter profissionais atuando de maneira séria e competente ao longo do litoral traz uma segurança para a biodiversidade e para a fauna marinha brasileira como um todo, seja ela a fauna que habita nossas águas durante todo o ano ou sejam os animais que se reproduzem em outros continentes e ocorrem por aqui apenas em alguns períodos do ano.
Explique como se inicia a rotina diária de um ambientalista na sua função. Você acorda e começa a receber as ligações informando sobre os animais encalhados?
O IPRAM tem quatro municípios para realizar o monitoramento diário de praias. Então eu costumo preconizar com a nossa equipe que não podemos ficar sabendo de ocorrências que são de nossa responsabilidade através de terceiros. É claro que a gente tem uma rede de apoio muito grande, composta por moradores, salva-vidas, comerciantes locais e vários atores que são envolvidos na plenitude do trabalho que a gente desenvolve. Porque as pessoas que habitam a margem litorânea sabem de tudo o que acontecem, e nos ajudam muito a saber das ocorrências rapidamente, inclusive fora do monitoramento. Como isso acontece? A gente tem a janela de monitoramento, com cada monitor percorrendo aproximadamente 8 km de praia em um esforço que é desempenhado por uma hora e meia. Em se tratando das ocorrências reprodutivas, é possível registrar a maior parte delas com esse esforço de monitoramento diário, nesse único trajeto.

Porém, quando a gente fala dos encalhes dos animais, essa janela de esforço é pequena. Os animais podem encalhar várias horas depois do monitoramento, ao longo do dia. Então nesse sentido, o apoio da população é indispensável. O monitoramento, propriamente dito, nos dias de primavera e verão, se inicia por volta das quatro horas da manhã, quatro e quarenta, onde for possível. Digo isso, porque em algumas localidades a gente trabalha com grandes perdas de faixas de praia em decorrência da urbanização do litoral, o que ocorre em todo o Brasil, em geral. Em alguns trechos a gente não tem areia para transitar, pois o mar já encosta nas construções e seus muros, com agravante a depender da maré ou da entrada de uma frente fria, por exemplo. Mas onde a gente consegue acesso, o monitoramento é executado bem cedinho pela manhã.
E a partir do momento que você tem a equipe na praia, já precisa ficar atento ao que vai ocorrer. O nosso tempo de resposta é crucial para o sucesso do que a gente faz. Se tem uma desova em área de risco e o monitor me reporta isso às cinco horas da manhã, eu estar nela para fazer a transferência do ninho na maior brevidade possível, porque isso é fundamental para o sucesso da eclosão daquela ninhada. Se a gente está falando da ocorrência de um animal vivo, eu também preciso de um tempo de resposta ágil para garantir a vida daquele animal. Ou mesmo se estiver morto e bem fresco, quanto mais passar o tempo, mais ele vai se decompor. Então eu preciso atender rapidamente, acondicioná-lo no gelo antes do transporte ao IPRAM, etc.

Você tem se envolvido em ocorrências memoráveis em nossas praias, seja resgatando tartarugas marinhas ou acompanhando suas desovas. Há sempre a presença da população nesses momentos, seja mantendo a distância da mamãe tartaruga, seja ajudando sua equipe a carregar o animal de grande porte. Para quem vê de fora, isso mostra a nobreza de parte da população capixaba, que se importa com a vida marinha e reconhece a sua importância. Mas na sua percepção, como as pessoas têm se comportado em relação a esses registros? Existe alguma parte da população que prejudica ou dificulta o trabalho?
Eu costumo falar que a parcela da população que quer “fazer a moqueca da tartaruga” é maior. A gente vive em um momento muito polarizado, de maneira que às vezes você cuidar dos bichos te veste com rótulos, que lhe são dados por pessoas que muitas vezes não analisam friamente uma situação e se deixam levar por pensamentos irracionais. Falta sensibilidade à pessoa entender o que ela está falando. A gente defender a natureza não significa que a gente é de uma ideologia política ou não.
E além dessa situação, tem a questão das pessoas enxergarem o nosso trabalho de maneira distinta. Então a gente tem a pessoa que acha um desperdício de dinheiro cuidar do que a gente cuida, sendo que existem pessoas passando fome, precisando de assistência hospitalar, etc. Você tem a pessoa que quer fazer a moqueca da tartaruga, que quando te vê na praia já vem fazer graça dizendo “isso fritinho é muito gostoso”. Tem, tem mesmo. E tem quem protege o nosso trabalho.

O que acaba acontecendo: muitas das vezes, nas ocorrências que atendemos, geralmente a aparição desses animais comove as pessoas. O fato da gente trabalhar com tartaruga, é uma coisa que facilita um pouco o ímpeto da população, no sentido de que é um animal que vem na praia e consegue respirar tranquilamente. É diferente de um evento quando envolve um golfinho, uma baleia, quando fica todo mundo muito agoniado. Grosseiramente, as pessoas possuem a falsa ideia de que esses animais precisam respirar dentro da água, com os peixes. Então com os mamíferos a população intervém, pega o animal e devolve para a água por conta própria, às vezes prejudicando o trabalho especializado. Mas a experiência que temos com as tartarugas costuma ser positiva, no sentido de pedirmos licença e apoio à população, e recebermos esse retorno de maneira bastante evidente. Nas desovas de tartaruga na praia, quando a gente solicita às pessoas que saiam do campo de visão do animal e que façam silêncio, temos obtido um retorno saudável e positivo.
Mas ainda temos situações negativas que ocorrem fora de nossa visão, quando a gente verifica a atuação de pessoas mal-intencionadas; por exemplo, quando roubam nossas estacas de marcação dos ninhos. Também utilizamos canos de PVC para fazer um balizamento ao redor da desova, e esses canos de PVC também são removidos por pessoas que querem atrapalhar, vai saber por qual razão. Porque a gente deixa uma plaquinha com informações e com o nosso numero de telefone, não tem motivo para alguém bem-intencionado prejudicar sem querer essas marcações de ninho. Mas acontece.

A desova da tartaruga-de-couro em Jacaraípe em julho de 2025 foi um evento mais complicado de se conter a população? Os registros revelam muitas pessoas ao redor do evento. A tartaruga conseguiu cumprir sua missão de depositar os ovos?
Quando ela subiu para desovar, por ser uma espécie muito diferente das demais, a única que não possui uma carapaça rígida, ela comoveu uma grande quatidade de pessoas, que ficaram no entorno e colaboraram. Obviamente, muito do ímpeto da população nessa ocorrência em especifico foi contido com a presença da Policia Militar Ambiental, que ficou salvaguardando o animal com a gente. Em dado momento um cidadão ficou mais exaltado, e se não fosse a presença do policial para impor a ordem, ele poderia ter feito alguma coisa que prejudicasse a desova do animal. Não que fosse ficar impune, pois havia uma maioria de pessoas comovidas com a presença daquela tartaruga enorme, mas em determinado momento ele foi se tornando cada vez mais invasivo e o policial teve que lhe chamar à atenção de maneira mais enérgica, nos sentido de “amigo, se você passar desse ponto aqui a nossa abordagem vai ficar diferente.” Então ela conseguiu sim, cumprir sua missão de fazer a postura dos ovos.
Pense comigo, o animal enfrentou todas as condições adversas e decidiu subir à movimentada praia de Jacaraípe por volta das 18 horas, a maior praia do município mais populoso do Estado do Espírito Santo.
Então sobe do mar aquele animal imenso, que a população não está habituada, enfrentando a iluminação artificial na orla, que não estava apagada porque não era a temporada reprodutiva. E contra todos esses fatores, expressou o comportamento natural da espécie, que é fazer várias camas e depositar os ovos em uma dessas camas.
Se você não sabe, quando as tartarugas marinhas sobem à praia para desovar, antes da postura dos ovos, com as nadadeiras ela fazem um ajuste na areia ao seu redor, o que a gente chama de cama. E depois que desovam, elas bagunçam a areia para disfarçar essa cama, antes de retornarem ao mar. E a tartaruga-gigante se destaca, porque ela é a única que faz várias camas durante sua caminhada na praia, mas ela desova em apenas uma delas.
Então a gente assistiu a toda essa sequência de eventos até o seu retorno ao mar, que também não foi simples. Em quatro oportunidades ela sentiu a água salgada na arrebentação bater no corpo, nas nadadeiras, no rosto e mesmo assim virou as costas ao mar, como se fosse subir novamente, como se estivesse desorientada. E nesse processo, nós do IPRAM e do IBRAFF estávamos em contato telefônico com as autoridades solicitando que a iluminação da orla fosse apagada. E temos o registro em vídeo do animal retornando finalmente ao mar, imediatamente ao se desligarem as luzes dos postes.
A tartaruga-gigante tinha todas as condições desfavoráveis em relação ao seu ciclo biológico, e você vê como é linda a resiliência desse animal, como é inspiradora para a nossa rotina no dia a dia.

Você recebeu o reconhecimento da Polícia Militar Ambiental pelos seus nobres serviços em favor do meio ambiente. Como é a relação do IPRAM com os órgãos governamentais em sua área de atuação?
A relação do IPRAM com os órgãos governamentais se dá estritamente pelo viés técnico. A gente tem uma postura muito diplomática, mas sempre rigorosamente amparada em critérios técnicos. Quando a gente inicia a relação com um órgão que não conhece a gente, em pouco tempo esse órgão enxerga o que a gente faz, a forma como a gente faz, e vê que o que a gente fala é o que a gente faz, e aí nisso a gente conquista nosso espaço e nossas relações, o que é muito importante para que a gente conduza o nosso trabalho.

Você também se destacou através das atividades de educação ambiental. Ouvi dizer que sua agenda está tão cheia que anda recusando convites. O “Tio Wilson” já virou até boneco Funko. Explique como se dá essa metodologia de abordagem ao público; como costumam ser suas apresentações. O que motiva o Tio Wilson quando chega o momento de repassar esse conhecimento às pessoas?
A vida inteira eu gostei de lecionar. Porém, as disciplinas que eu gosto, a biologia, a veterinária, a oceanografia, são linhas de conhecimento que você consegue abordar mostrando exemplos práticos. Você consegue sensibilizar, você consegue tocar. Quando eu ministrava aulas de biologia era muito fácil, porque eu tinha uma série de recursos que eu podia mostrar para os alunos. No início eu já explicava que não iriamos estudar na forma do “decoreba”.

Como funciona nossa disciplina? Se momento eu falo com você que vi um bolo, você vai imaginar o tal do bolo na sua mente, porque você tem a experiência de ter visto bolos antes em sua vida. Na minha disciplina, quando eu falo de uma organela celular como o cloroplasto, o aluno consegue visualizar o cloroplasto e seus detalhes em sua mente, desde que você ministre sua aula de uma maneira visual. Porque se a sua aula versa apenas sobre o que faz um cloroplasto, escrevendo a teoria, é diferente.
Isso acontece também na educação ambiental, eu sou apenas um coadjuvante.
Quando eu chego numa escola ou numa praça do bairro, que é um espaço não-formal de educação, abro o carro do IPRAM e começo a colocar todos os animais taxidermizados para fora, seria preciso um cinegrafista apenas para flagrar a primeira reação maravilhada das pessoas. Os bichos, por si só, já cativam a todos.
E a gente vive em uma sociedade na qual muitas dessas pessoas comovidas agora, não foram comovidas quando alunos, ou não tinham condições de estudar porque começaram a trabalhar desde cedo, tem vários fatores limitantes. Essa estratégia de conseguirmos explicar sobre os animais de maneira visual, utilizando as peças de taxidermia, permitindo que as pessoas toquem as peças e sintam suas texturas, isso por si só já é suficiente para comover quem vem à nossa tenda. Eu brinco internamente que os nossos indicadores de eficiência das ações de educação ambiental é o número de pessoas convertidas, as que eu consigo converter no sentido de entender a importância de descartar o resíduo no local apropriado ao invés de jogar na natureza.

Eu trabalho muito em cima desse sentido. Aqui no Espírito Santo as pessoas dizem que “vão para o rock” quando saem de casa para se divertir em algum barzinho ou evento qualquer. E eu tenho um prazer enorme nessas ações educativas, então quando temos um evento agendado eu brinco com a equipe que estamos indo para o “rock técnico”.
Geralmente fazemos isso de maneira voluntária, porque atualmente não temos no IPRAM um projeto que pague pelas ações de educação ambiental, então a gente ainda não consegue desenvolver um cronograma sistematizado em que ao longo de todo o ano a gente trabalhe com educação ambiental em dias úteis. Então a gente realiza essas ações em fins de semana e feriados, que são momentos que eu não tenho que elaborar relatórios ou prestar contas para clientes.
E eu tenho muito prazer também de levar essas exposições a lugares aonde os bichos não chegam. Nesse mês de janeiro, por exemplo, nós vamos fazer uma ação a convite de uma prefeitura em comunidades periféricas, o que para mim é muito importante. Levar o animal a uma criança que não tem condições de visitar um museu, um zoológico. Eu gosto de ir aos locais em que as crianças não conseguem sair com facilidade daquele contexto onde moram. E aí é onde temos os retornos mais variados. Mexe com a gente quando um menino diz “tio, eu achei que nunca veria um pinguim de verdade na minha vida.” enquanto interage com um animal taxidermizado.

E além de mexer muito com a gente, precisamos entender que vivemos em um mundo em que não temos como segregar o sujeito do ambiente onde os animais vivem. Compartilhamos o mesmo espaço. A gente precisa inserir o sujeito em nosso contexto, sensibilizá-lo para o que a gente faz. Isso é bem direcionado para as futuras gerações, sim, mas a gente também pode sensibilizar os mais velhos, os idosos. O resultado nem sempre será o mesmo, mas já vivenciei a situação de um senhor de idade dizer “você conseguiu tocar meu coração com o que falou”.
Os pais também precisam ajudar com a mensagem. Teve o caso de um menino cujo pai incentivava a passear de quadriciclo por cima da restinga, até que certa vez durante essa atividade ele encontrou uma tartaruga encalhada e nos acionou, e conversamos, e ele foi sensibilizado. Eu tenho esperança, ainda. Vejo muitas coisas positivas. Enquanto eu tiver vida, estarei tentando sensibilizar quem chegar para conversar comigo. A educação ambiental nós fazemos diariamente.
Não tem um único dia em que eu esteja na praia fazendo o trabalho e não venha pelo menos uma pessoa perguntar sobre o que estamos fazendo. E essa pessoa certamente volta para casa informada minimamente sobre os animais com os quais trabalhamos, o impacto do ser humano a essas vidas e sobre a importância de cuidar do próprio resíduo, de não descartar lixo incorretamente na praia.
Você sente uma evolução no pensamento da população em relação ao meio ambiente? Porque apoiar o meio ambiente virou politicamente correto. Nas redes sociais, todos são engajados. Mas no dia-a-dia, continuamos vendo a mácula do legado humano de destruição da terra, seguimos tropeçando no lixo descartado incorretamente, despejando esgoto em águas límpidas. Qual é a percepção do Tio Wilson, que está lutando nas trincheiras?
Se a gente comparar o passado com o presente, percebe que a consciência ambiental vem sendo minimamente discutida, porque desde que o mundo é mundo você tem as pessoas vendo as notícias, nos jornais, rádio ou televisão, sobre informações meteorológicas. Então você sempre teve uma relação muito próxima do ser humano com o planeta. Hoje não é apenas uma questão de se vai chover ou não, agora é uma relação mais íntima relacionada às catástrofes que as pessoas por todo o planeta podem sofrer.

Isso tem sido discutido mais, do ponto de vista de nosso comportamento frente às mudanças climáticas. Hoje fala-se mais sobre, discute-se mais sobre, apesar de tudo de errado que a gente vê. Muito lixo espalhado pela praia, e o desrespeito com a natureza em geral. Mas tem muita gente protegendo também. Então a gente precisa continuar promovendo educação ambiental, tentar mudar o comportamento dessas pessoas e seus filhos, para que a gente compreenda que a Terra é viva e dinâmica, e se a gente não cuidar de onde a gente vive, vai sofrer as consequências.
Somos os senhores do planeta, os donos da tecnologia, mas apenas até o momento que a terra tremer, que a enxurrada alagar tudo, que o fenômeno climático extremo vier.
Então nem que seja pela dor, a gente vai compreender isso, e por isso seguiremos tendo mudanças em muitos aspectos voltados à preservação do meio ambiente. Por isso, eu vejo avanços, mesmo que pequenos. Apesar de tudo o que a gente vê de errado, eu vejo avanços.
Editor – Empreendedor no setor de publicações independentes e fundador do Jornal Calçadão em 1988 – agosto. Fundador do Parque Pedra da Cebola – onde com o Jornal Calçadão durante 10 anos construiu uma tese : Notícias Saudáveis transformam a sociedade doente.. Editor da Revista Municípios do Espirito Santo – 1998 a 2010 – Com 18 edições.

