Calçadão Meio Ambiente – Artigo: Por Luis Felipe Mayorga – Pinguins e outros animais marinhos promovem a saúde

Calçadão Meio Ambiente – Artigo: Por Luis Felipe Mayorga – Pinguins e outros animais marinhos promovem a saúde

"Um problema identificado em uma ave marinha, em uma tartaruga ou na água do mar também pode trazer informações relevantes para a saúde da população".

por Luis Felipe Mayorga – médico veterinário. Diretor Presidente do Instituto de Pesquisa e Reabilitação de Animais Marinhos (IPRAM)

Parece estranho, mas é isso mesmo. A saúde das pessoas está ligada à dos animais e à do ambiente em que vivem. Essa tríade é a base da Saúde Única, uma abordagem reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que integra diferentes áreas do conhecimento para prevenir doenças e enfrentar ameaças sanitárias.

Um problema identificado em uma ave marinha, em uma tartaruga ou na água do mar também pode trazer informações relevantes para a saúde da população.

Comecei a trabalhar com animais marinhos durante a graduação, quando ocorriam encalhes em massa de pinguins-de-magalhães nas praias capixabas nos meses de inverno. Sem uma resposta ágil do poder público, era comum que algumas pessoas levassem pinguins para a própria residência até que o resgate chegasse. Cheguei a escutar histórias de pessoas que comeram os pinguins. Éramos estudantes ou recém-formados em ciências biológicas e medicina veterinária, e no ano de 2010 fundamos uma organização sem fins lucrativos voltada à resolução desse problema.

Quando começamos a analisar os pinguins vivos e mortos, encontramos informações preocupantes. As aves debilitadas estavam repletas de vermes nematódeos capazes de infectar seres humanos. Normalmente as pessoas contraem esse parasita ingerindo peixe ou frutos do mar crus. Mas naquele momento, estavam trazendo o Contraceacum pelagicum para a própria residência, expondo crianças, idosos e animais de estimação. Os fungos do gênero Aspergillus também eram muito comuns nos pinguins durante o tratamento em cativeiro, também com potencial de zoonose para pessoas com o sistema imune debilitado.

A partir daquela experiência, compreendi que o esforço para recuperar um animal selvagem ou marinho também gera conhecimento sobre os agentes infecciosos e as condições do ambiente ao qual ele esteve exposto.

E ainda mais informações podem ser obtidas com a análise dos animais mortos. O exame necroscópico tem como objetivo encontrar evidências preliminares da causa da morte, o que nem sempre é possível. Muitas vezes essas evidências serão microscópicas, dependendo da colheita de amostras para análises complementares.

 

Treze pinguins mortos estão empilhados em uma mesa de inox em uma sala com aspecto de necrotério. Em outra mesa, um jovem com luvas está abrindo uma carcaça de pinguim.
Necropsia de pinguins no Anatômico da Universidade Vila Velha (UVV) no ano de fundação do IPRAM, em 2010. Autoria: Laila Carine Campos Medeiros.

Uma pesquisa do Dr. Igor Acosta analisou amostras de sangue de 145 pinguins-de-magalhães que atendemos, sendo encontrados anticorpos contra Toxoplasma gondii em 18 indivíduos – cerca de 12,4%. O estudo também analisou amostras congeladas de mais de 300 pinguins mortos e identificou o parasita Sarcocystis falcatula em tecidos de 16 indivíduos. Os felinos e os gambás são os hospedeiros definitivos desses protozoários, respectivamente. Então como eles foram transmitidos aos pinguins? Não se sabe.

Outro trabalho ampliou essa investigação para tartarugas marinhas. O estudo liderado pela pesquisadora Anna Elisa Athayde-Gusmão apresentou a primeira evidência de anticorpos contra o Toxoplasma nesses répteis, desafiando a ideia de que o protozoário afetava apenas animais de sangue quente. Os achados não demonstraram doença ativa ou transmissão para pessoas, mas contribuem com a investigação da contaminação ambiental e circulação da zoonose. Com nove resultados positivos em 102 amostras (quase 9%), esse estudo discutiu a possibilidade das tartarugas estarem expostas a material contaminado de origem terrestre que é despejado no ambiente costeiro.

Em relação à poluição química, outro trabalho conduzido pelo Dr. Ralph Vanstreels examinou três tipos de ftalatos em 48 aves de 16 espécies resgatadas no litoral capixaba, em frequências que variaram de 31% a 44%. Os ftalatos são substâncias que são misturadas com plásticos (a exemplo do PVC) para torná-los mais flexíveis e duráveis. Estão presentes em materiais hospitalares, brinquedos, embalagens de alimento, tintas, capas de chuva, dentre uma miríade de produtos. As concentrações de ftalatos que encontramos nas aves sugeriram exposição abaixo dos limites conhecidos de toxicidade, mostrando que, a princípio, as aves contaminadas não estão sofrendo efeitos imediatos. E para a saúde humana? Será que também estamos ingerindo e acumulando esse produto químico em nossos corpos?

 

Dois pinguins estão de pé na beira de uma piscina, enquanto outros nadam, abaixo. A parte seca possui grandes pedras arredondadas, e ao fundo pode-se ver uma grade.
Pinguins em fase final de reabilitação. Autoria: Nathielle Pedroto.

Uma pesquisa publicada em 2023 investigou a relação entre fatores ambientais e a fibropapilomatose, doença que provoca o crescimento de tumores no corpo das tartarugas marinhas. A análise de 2.024 tartarugas-verdes encontradas no litoral do Espírito Santo entre 2018 e 2021 registrou tumores em 40,9% dos indivíduos, investigando como as condições físicas individuais e ambientais na região costeira influenciam a saúde desses animais. Se as águas costeiras nas regiões urbanas estão poluídas a ponto de induzirem o crescimento de tumores nas tartarugas marinhas, que outros prejuízos ela não poderia causar para a saúde de seres humanos que no mesmo ambiente praticam natação, mergulho, surf e tantos outros esportes náuticos?

 

Uma tartaruga de porte médio está sobre uma camada grossa de toalha branca em uma mesa de inox, em um ambiente externo. Ao fundo, um tanque de água. Uma pessoa com luvas aplica soro fisiológico em sua carapaça, enquanto outra pessoa segura o animal pelas nadadeiras anteriores.
Tartaruga-verde (Chelonia mydas) recebe limpeza de um machucado na carapaça. Autoria: Victoria Campos.

Mas a nossa principal contribuição ao poder público ocorreu em maio de 2023, na identificação dos primeiros casos confirmados de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (H5N1) no Brasil. Quando percebemos duas andorinhas do mar e um atobá com sinais neurológicos, realizamos a notificação ao Ministério da Agricultura, que enviou técnicos do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) para colheita de amostras e envio ao laboratório oficial. A confirmação laboratorial veio cinco dias depois, com grande alarde na mídia.

Nas semanas seguintes se registrariam mortes em massa de aves na costa e nas ilhas capixabas, assim como novos focos em outras Unidades Federativas. Esse episódio evidenciou como a reabilitação de fauna silvestre atuou como um sistema de alerta para a vigilância sanitária, desencadeando uma resposta que envolveu os setores da agricultura, meio ambiente e saúde. Pessoas infectadas com a Influenza Aviária possuem mais de 50% de chances de evoluírem ao óbito, e se o vírus alcançar a produção avícola, a cadeia de exportação pode ser severamente prejudicada.

Foi o trabalho com as aves marinhas que permitiu ao governo direcionar as medidas de enfrentamento mais eficientes no início da Epizotia, protegendo também o mercado de produtos de origem animal.

Duas pessoas vestidas com equipamentos de proteção como macacões brancos, luvas e máscara atendem um pinguim deitado em uma mesa. Uma pessoa segura o animal enquanto a outra injeta algo com uma seringa de 60 ml.
Pinguim debilitado recebe atendimento no IPRAM após o resgate. Autoria: Leandro Egert.

Nos dias atuais, é cada vez mais frequente a presença de bactérias resistentes a antibióticos nos pinguins que recebemos. Enviamos amostras para análises microbiológicas ao Dr. Gabriel Augusto Marques Rossi, da Universidade Vila Velha (UVV). Como resultados iniciais, em 2026 em nove amostras de pinguins cresceram bactérias resistentes a Ceftriaxona ou Meropenem. Esses são antibióticos críticos, considerados de importância máxima pela Organização Mundial da Saúde para tratar infecções graves em humanos quando outras opções de antibióticos falham. Em qual parte de sua rota migratória os pinguins contraíram essas bactérias resistentes a antibióticos de uso restrito? Estamos falando de animais que passam pela Argentina, Uruguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro antes de chegarem à costa do Espírito Santo.

Existem pessoas sendo afetadas por essa mesma fonte de contaminação no momento atual? Essa pesquisa levanta perguntas sérias que precisam ser investigadas pelo poder público.

Pinguins recebem banho de mangueira. Autoria: Victoria Campos.

Agora, imagine uma rede de instituições realizando esse mesmo trabalho com os animais marinhos, atuando em toda a costa brasileira? Pois essa rede existe, composta por Universidades e outras Ongs. Boa parte dessas instituições presta serviços à cadeia de exploração e perfuração do petróleo. Durante o processo de licenciamento ambiental das empresas petrolíferas, o IBAMA estabelece condicionantes que, quando envolvem fauna, frequentemente resultam na contratação das instituições que já trabalham na região e acumulam anos de experiência. A Petrobras é a maior envolvida no assunto, estruturando grandes Projetos de Monitoramento de Praias de norte a sul do país; mas outras petrolíferas privadas também participam desse ciclo. Toda essa cadeia de serviços de atendimento a animais marinhos movimenta um mercado de trabalho de tratadores, biólogos e médicos veterinários especializados, resultando na geração de conhecimento científico e em ferramentas para que o poder público possa proteger a fauna, o ambiente e as pessoas, ou seja: a saúde única.

A saúde única em um país de grande extensão territorial depende de conhecimento multidisciplinar, produção de informações de qualidade, envolvimento de instituições científicas e uma gestão governamental que mantenha todo esse ecossistema oxigenado e funcionando plenamente.

Considerando que mais da metade da população brasileira habita a faixa litorânea, as iniciativas do poder legislativo que buscam enfraquecer o licenciamento ambiental com o objetivo de acelerar empreendimentos certamente prejudicam a saúde pública.

Referências Bibliográficas:
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Em primeiro plano, um pinguim nada com a cabeça para fora da água, em um tanque com água de cor azul-turquesa. Ao fundo, desfocados, outros pinguins também nadam.
Pinguins em tratamento praticam natação. Autoria: Nathielle Pedroto.

 

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