Entrevista - Dr. Luis Felipe Mayorga - Médico veterinário - atua como presidente do IPRAM - Instituto de Pesquisas e Reabilitação de Animais Marinhos com sede na Praia dos Recifes em Vila Velha - ES. fundado em 2010 - abaixo: video do IPRAM
Reconhecimento pós, 15 anos de fundação. O IPRAM e sua valiosa ação institucional voltada a reabilitação de espécies marinhas e silvestres no estado do ES.
Cinematograficamente localizada, a sede erguida, tendo como vizinha a Atlântica Praia dos Recifes, próxima, em meio as Praias da Barra do Jucu e Ponta da Fruta no município de Vila Velha.
POR – MÁRIO BERARDINELLI –Editoria e textos
Buscamos em entrevista com o ambientalista, medico veterinário, Dr. Luis Felipe Mayorga informações sobre o evento de nível nacional que está sendo realizado em nosso estado no periodo de 24 a 28 de agosto de 2026, Vitória/ES – evento que convoca ao debate autoridades, cientistas, profissionais, estudantes, representantes de entidades não governamentais, do Brasil como representantes na realização do 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO’2026).
O evento técnico-científico mais relevante das Ciências do Mar no Brasil, trouxe pesquisadores de todo o país para a discussão de novidades tecnológicas, ciências naturais e networking, movimentando a rede hoteleira e turística em nossa capital. Porem, mais que fomentar a economia, o Congresso visa ampliar os valores que necessitam de enfrentamento e investimentos , ações perante a responsabilidades das atividades em desenvolvimento em nossos habitats marítimos e terrestres que afetam nossos oceanos.
O CBO’2026 trouxe uma programação robusta e estratégica para o fortalecimento da Economia Azul, a promoção da cultura oceânica e o avanço técnico-científico frente aos desafios das mudanças climáticas e um desenvolvimento cada vez mais sustentável. Desde sua primeira edição, realizada em 2004 em Itajaí – SC, o CBO consolidou-se como o principal evento técnico-científico da área no país., ao criar um espaço para debates, divulgação de pesquisas e troca de experiências. A multidisciplinaridade da Oceanografia é refletida nas temáticas abordadas, que a cada edição discutem os assuntos mais atuais, valorizando a integração entre academia, poder público, iniciativa privada, sociedade civil e organismos nacionais e internacionais.
“Os Legados dos Programas de Monitoramento de Praias para a Ciência, à Conservação da Biodiversidade Marinha e à Formulação de Políticas Públicas”. Me. Gabriella Tiradentes Pizetta (Centro TAMAR/ICMBio). Convidada.
Na manhã da quinta-feira 26, concomitante à diversos outros importantes painéis distribuídos por todo o Centro de Convenções em Vitória, ocorreu a mesa-redonda Além do Licenciamento: Os Legados dos Programas de Monitoramento de Praias para a Ciência, à Conservação da Biodiversidade Marinha e à Formulação de Políticas Públicas”, mediada pela analista ambiental, Me. Gabriella Tiradentes Pizetta (Centro TAMAR/ICMBio).
Me. Luis Felipe Mayorga (IPRAM) – Presidente do IPRAM – Ações de Campo – Monitoramento de Praias.
Os convidados foram Ma. Renata Pires Nogueira Lima (IBAMA), Dra. Denise Rosário (Petrobras), Me. Bruno de Barros Giffoni (Fundação Projeto TAMAR) e Me. Luis Felipe Mayorga (IPRAM).
Renata Pires Nogueira Lima (IBAMA) apresenta as competências do IBAMA e os fundamentos do processo de licenciamento ambiental da Petrobras que resultaram nos Projetos de Monitoramento de Praias (PMP).
Com a sala lotada por representantes ilustres de diversas instituições ambientalistas e universidades interessados no assunto, esse encontro discutiu como os Programas de Monitoramento de Praias evoluíram para além do atendimento às condicionantes ambientais do licenciamento federal, tornando-se uma importante ferramenta para a conservação da biodiversidade marinha, o fortalecimento institucional, a geração de conhecimento e o suporte às políticas públicas. Luis Felipe Mayorga respondeu ao Jornal Calçadão sobre as implicações de um trabalho dessa magnitude para a sociedade.
Entrevista
Me. Luis Felipe Mayorga – Congresso Brasileiro de Oceanografia – CBO¨2026 – Espirito Santo – Brasil.
Explique o que significa o PMP, o licenciamento ambiental, qual o papel do IBAMA e da Petrobras. Como isso se relaciona com os animais marinhos que encalham em nossas praias?
Quando a Petrobras inicia um novo empreendimento, como um novo poço para exploração, ela precisa pedir autorização ao IBAMA, cuja responsabilidade é avaliar os impactos ambientais dessa atividade, e quais são as áreas, comunidades humanas e espécies animais potencialmente afetadas.
A autorização do IBAMA para esse empreendimento funcionar normalmente traz uma lista de quais são as condicionantes que a Petrobras precisará atender para que a autorização seja válida. O Projeto de Monitoramento de Praias (PMP) é uma dessas condicionantes, desse processo de licenciamento ambiental conduzido pelo IBAMA.
O objetivo do PMP é entender qual é o tamanho do impacto das atividades petrolíferas aos animais marinhos. Quando um animal vivo ou morto apresenta contaminação por óleo, esse material é colhido e analisado para saber se tem origem na indústria petrolífera ou se veio de alguma embarcação derramando combustível, o que costuma ser mais comum. Já as carcaças frescas, mesmo que não estejam contaminadas por óleo, têm algumas amostras de órgãos internos colhidas e analisadas quanto à presença de alguns componentes microscópicos que rastreiam a possível contaminação crônica dos animais por derivados do petróleo. Por outro lado, todo esse esforço de monitoramento acaba comprovando que uma quantidade expressiva de animais tem a sua morte associada a outras causas, sendo a principal delas a interação com atividades de pesca.
Porém o PMP registra também as mortes de causas naturais por infecções parasitárias e predação, ou por outras causas de origem humana, como colisão com embarcações e ingestão de resíduos sólidos (lixo), por exemplo. Toda a cadeia de esforço investido e resultados obtidos pelo PMP da Petrobrás acaba, portanto alimentando um ecossistema de informações e de profissionais especializados ao longo de toda a costa brasileira, tendo assumido proporção e importância gigantescas para a sociedade e para o conhecimento científico.
Pelas informações apresentadas pela Dra. Denise Rosário (Petrobras), e pelo Bruno de Barros Giffoni (Fundação Projeto TAMAR), esse é o maior programa de monitoramento de praias do planeta.
Luis Felipe Mayorga (IPRAM) apresenta os incrementos que o PMP da Petrobras trouxe para o IPRAM.
Poderia nos resumir o que o IPRAM apresentou no evento?
De minha parte, o IPRAM pôde apresentar sobre os incrementos que o PMP da Petrobras trouxe à sua estrutura, recursos humanos e capacidade de atuação, viabilizando a realização imediata de exames laboratoriais e de diagnóstico por imagem, otimizando o tratamento dos animais. Expus alguns resultados do primeiro ano de monitoramento de praias realizado pelo IPRAM, tanto quanto o recolhimento de carcaças ou animais debilitados, quando no registro de atividade reprodutiva de tartarugas marinhas, além dos desafios e riscos inerentes à atividade.
Em minha fala, expliquei que essa condicionante do IBAMA tem sido muito importante para a pesquisa com animais marinhos encalhados, pois antes dos PMP os pesquisadores atuavam de maneira descentralizada com variações metodológicas entre si, e dependiam de uma rede de informações voluntária, que envolvia pescadores, moradores costeiros e banhistas ocasionais. Como o verão é uma época que apresenta mais banhistas, isso resultava em um maior volume de ocorrências relatadas, e criava um viés: pensava-se que os animais marinhos encalhavam em maior quantidade no verão. Atualmente, com o PMP, sabemos que aqui no ES existem picos de registros de carcaças no período próximo ou que antecede o feriado da Páscoa, e também entre agosto/setembro.
Portanto, o fato do PMP nos fornecer informações diárias em uma busca ativa com metodologia uniforme em boa parte da costa brasileira permite que se padronize a coleta de dados em extensos territórios costeiros, ampliando a visão dos pesquisadores. Para a ciência, o PMP viabiliza capacitação e padronização metodológica, que resulta em apoio a estratégias de conservação e geração de conhecimento aplicado.
Por fim, expus a produção científica atualizada do IPRAM, que com a contribuição das informações obtidas através do PMP, até o momento já publicou 42 artigos em periódicos, 66 resumos em eventos, 7 capítulos de livros e contribuiu com 16 teses, dissertações ou Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC).
Mas afinal, como esse trabalho todo deixa de ser um banco de dados restrito à academia e aos órgãos licenciadores e se torna algum tipo de retorno para a sociedade e para as políticas públicas?
Por exemplo, graças aos registros do PMP, em 2019 o IPRAM conseguiu contribuir com as oficinas na atualização do grau de ameaça dos animais marinhos que constam no livro Fauna e flora ameaçadas de extinção no estado do Espírito Santo, publicado pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). Obter dados de animais marinhos para permitir esse tipo de avaliação antes do PMP era muito difícil devido à escassez de dados. Em 2022 o IPRAM compôs o grupo de entidades e pesquisadores que reivindicou ao poder público estadual a publicação do decreto com a lista de espécies com risco de extinção no Espírito Santo, resultando nos Decretos Estaduais nº 5.237/2022-R (fauna) e nº 5.238-R/2022 (flora). Esses decretos, além de atualizarem a lista de espécies, estabeleceram restrições claras para a sua retirada da natureza, criação em cativeiro, beneficiamento e comercialização.
Mesa-redonda “Além do Licenciamento: Os Legados dos Programas de Monitoramento de Praias para a Ciência, à Conservação da Biodiversidade Marinha e à Formulação de Políticas Públicas”, mediada pela analista ambiental, Me. Gabriella Tiradentes Pizetta (Centro TAMAR/ICMBio). Os convidados foram Ma. Renata Pires Nogueira Lima (IBAMA), Dra. Denise Rosário (Petrobras), Me. Bruno de Barros Giffoni (Fundação Projeto TAMAR) e Me. Luis Felipe Mayorga (IPRAM).
Foi discutido algo sobre como fazer essas informações alcançarem a população e principalmente, a juventude e os estudantes, que compõem a nossa esperança de transformações positivas no futuro?
Sim, falei também sobre a divulgação da importância da conservação da fauna marinha. O IPRAM utiliza de várias ferramentas para sensibilizar a população, como exposições com peças anatômicas taxidermizadas, palestras e atividades infantis distribuídas em escolas, conteúdos em vídeo para redes sociais na forma de aulas, documentários e registros de solturas dos animais… Também publicamos o livro infantojuvenil “A Viagem do Pinguim”, que eu levei para presentear os componentes da mesa-redonda. Uma novidade é que agora a versão digital de “A Viagem do Pinguim” consta no acervo do site Maré de Ciência, que é um programa de extensão da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP campus da Baixada Santista) dedicado a trabalhar a difusão científica e o engajamento para fortalecer a interface entre ciência, políticas públicas e sociedade. Nesse site consta que educadores podem utilizar meu livro para debater a conservação da biodiversidade de praias e costas, e que é um recurso pedagógico apto para estudantes do Fundamental I, Fundamental II, Ensino Médio e Ensino Superior, bem como serve para Programas de Ensino ao Idoso e Portadores de necessidades especiais. Também consta que a leitura do livro apoia diretamente o aprendizado prático das metas globais estabelecidas pelo ODS 14 da ONU (fonte). Recentemente disponibilizei também”A Viagem do Pinguim” para a curadoria do Clube do Livro em Braille (CLB) avaliar se ele poderá compor o acervo, vamos torcer por um resultado positivo.
Editor – Empreendedor no setor de publicações independentes e fundador do Jornal Calçadão em 1988 – agosto. Fundador do Parque Pedra da Cebola – onde com o Jornal Calçadão durante 10 anos construiu uma tese : Notícias Saudáveis transformam a sociedade doente.. Editor da Revista Municípios do Espirito Santo – 1998 a 2010 – Com 18 edições.