Mônica de Aquino
Especial para o EM
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Delirium. Aprendo, com Mar García Puig, que a palavra, em sua origem, significa “fora do sulco”: delirante seria aquele incapaz de traçar uma linha reta no chão. E ela confessa sua dificuldade para traçar uma linha reta no solo branco da política.
No mesmo dia em que dá à luz os filhos gêmeos, Puig é eleita deputada no parlamento da Espanha. Ainda neste dia, sente os primeiros sintomas da ansiedade puerperal que levaria a um quadro complexo de hipocondria. Mas a expressão saúde mental, plana e asséptica, não a representa. “Já não há força criadora na loucura, nem energia mobilizadora na tristeza, nem rebeldia na angústia.”

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Se a doença psíquica pode ser entendida como uma outra linguagem para além do logos, a ausência de palavras torna-se política para Puig que nos entrega, neste livro, um amoroso trabalho arqueológico em que resgata a intrincada história que une mulheres e loucura. Mais que isso: busca ouvir e transmitir sua múltipla voz.
Nesse desejo enciclopédico de entender e dar sentido às experiências – o que, para Puig, parece sempre significar uma relação profunda entre vida privada e pública -, a autora nos traz um exemplo curioso evocado pelo naturalista Piotr Kropotkin que se contrapõe à evolução das espécies como luta mútua: as formigas. De repente, olho de outra forma esses insetos que alimentam as companheiras com substâncias que expelem do estômago. E que chegam a ter, para isso, um órgão digestivo composto por duas partes, uma delas dedicada à partilha. “Formigueiro”, metáfora para os centros urbanos, grandes e impessoais. Mas o “exército de formigas” que nós somos, no lugar de alienação e disciplina, me fazem pensar em cuidado.
Mar García Puig não conta que Piotr Kropotkin foi também um dos principais teóricos do movimento anarquista. Anarquia, palavra que adiciona o “a” da negação à palavra grega arkhê, que remete a ordem, governo, tradição, autoridade, poder; que subverte hierarquias para propor um convívio mais igualitário, sem líderes e sem dominação. E que aproximo, agora, da maternidade: essa que não quer traçar linhas retas no solo, mas que se inclina, que assume a sinuosidade; essa que não quer perpetuar linhas verticais de domínio e de submissão, mas que deseja ser recomeço, abertura e encontro.

Voltando às palavras de Puig, a maternidade é assumida, assim, como “um posicionamento ético que escuta a dor dos outros”, através de “um ativismo encarnado, que recusa o racionalismo abstrato”: “recuperamos a maternidade do estreito marco privado do patriarcado e a fazemos irromper na política.”
Se a maternidade pode ser entendida como uma relação de poder profundamente assimétrica, em que cuidamos de um novo ser absolutamente vulnerável nos primeiros anos (como bem nos lembra a filósofa italiana Adriana Cavarero), uma maternidade criativa e transformadora deve, então, questionar esse poder para ser, também, potência anárquica; no lugar da mera repetição de papéis (dentro de uma cerrada moldura social), apostar na reescrita da origem e da identidade. Para fazer da partilha, um novo caminho, e do delírio, utopia.
Descubro o livro “Inclinazioni” (Inclinações) da Cavarero na minha primeira leitura de “A história dos vertebrados”, em uma edição em espanhol que compro na Argentina, e o livro logo se torna central nas minhas reflexões e pesquisas. “Mãe”, vale a pena repetir, é acima de tudo o nome para uma inclinação em direção ao outro”, a filósofa afirma, enquanto toma esse gesto não com um destino biológico, mas como uma escolha.
Inclinar-se é sair do próprio eixo, arriscar o equilíbrio, assumir outros pontos de vista. Exercício essencial também na arte – e na política. “Quando sou frágil, sou forte. Quero transformar esse lema na agulha de minha bússola (…)”, Mar García Puig declara, assumindo o mesmo tipo de posição anti-hierárquica ao escrever sobre a própria vulnerabilidade e ao fazer da sua voz um espaço aberto de composição e de reverberação de tantas outras vozes silenciadas.
Afinal, fazer política – como cuidar de um filho – é também contar de um outro modo a História. Porque é ele, o cuidado (e não uma razão descarnada e artificial) o centro da vida comum.
“A história dos vertebrados”
De Mar García Puig
Tradução: be rgb
Bazar do Tempo
304 páginas
R$ 92
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MÔNICA DE AQUINO é poeta, pesquisadora, crítica de arte e curadora independente. O texto acima é versão ampliada da ‘orelha’ da edição brasileira de “A história dos vertebrados” (Bazar do Tempo)
Editor – Empreendedor no setor de publicações independentes e fundador do Jornal Calçadão em 1988 – agosto. Fundador do Parque Pedra da Cebola – onde com o Jornal Calçadão durante 10 anos construiu uma tese : Notícias Saudáveis transformam a sociedade doente.. Editor da Revista Municípios do Espirito Santo – 1998 a 2010 – Com 18 edições.


