Calçadão Saúde – Trombofilia: a condição que muda a vida em silêncio

Calçadão Saúde – Trombofilia: a condição que muda a vida em silêncio

Artigo - Por Gracciene Farias - Presidente do Instituto Brasileiro de Trombofilia- IBT

Por Gracciene Farias

Presidente do Instituto Brasileiro de Trombofilia- IBT.

Tem dores que fazem barulho. Atrombofilia não.

Ela chega quieta. Sem aviso. Sem aparência de doença. Talvez seja exatamente isso que torne tudo mais difícil. Quase ninguém percebe o que está acontecendo dentro do corpo de quem convive com ela. Muitas pessoas só descobrem a trombofilia depois de umsusto enorme. Uma trombose. Uma embolia pulmonar. Uma perda gestacional, umAVC.

Àsvezes, depois de quase perder a própria vida sem nunca imaginar que existia algo errado no sangue. E é assustador pensar em quantas pessoas ainda vivem sem saber. A trombofilia aumenta a tendência do sangue formar coágulos. Esses coágulos podem bloquear a circulação e causar complicações graves. Mas quem convive com isso sabe que o problema não fica apenas no corpo. A doença também invade o emocional.

Depois do diagnóstico, a vida muda de um jeito difícil de explicar. A pessoa passa a observar tudo. Uma dor na perna já preocupa. Uma falta de ar assusta. O próprio corpo deixa de transmitir segurança. E o pior é que, por fora, quase ninguém percebe.

As pessoas olham e acham que está tudo bem. Mas existe um desgaste silencioso acontecendo diariamente. O medo constante de passar por tudo outra vez. O cansaço do tratamento. A tensão de precisar permanecer alerta o tempo inteiro.

Tem dias em que tudo o que alguém deseja é descansar da própria preocupação. Muitas mulheres descobrem a trombofilia depois de perdas gestacionais. E não existe explicação simples para a dor de perder um filho que ainda estava sendo sonhado. É um sofrimento que transforma a pessoa por dentro. Além da perda, muitas vezes ainda vem a culpa. O sentimento de falha. O questionamento sobre o próprio corpo.

Até descobrir que existia uma doença silenciosa por trás de tudo aquilo.Eu conheço essa realidade de perto. Sei o que é viver entre consultas, exames, medicações e incertezas. Sei também o quanto é difícil tentar permanecer forte o tempo inteiro enquanto a vida continua exigindo que você siga em frente.Mas quase ninguém fala sobre o quanto isso desgasta.

Desgasta explicar a doença. Desgasta ouvir que é exagero. Desgasta tentar parecer tranquila quando o medo continua ali, em silêncio.A trombofilia muda planos. Muda a forma de viver uma gravidez, uma viagem, uma rotina simples. Algumas pessoas passam a olhar o futuro com insegurança.

Outras desenvolvem ansiedade. Muitas se sentem sozinhas porque poucos conseguem entender o tamanho desse peso. E, ainda assim, seguem vivendo.

Seguem trabalhando.

Seguem cuidando da família.

Seguem tentando sorrir.

Seguem resistindo.

Existe uma força muito silenciosa em quem convive com doenças invisíveis. Talvez seja por isso que eu fale tanto sobre trombofilia. Porque informação evita sofrimento.Evita perdas. E pode salvar vidas. Mas também porque eu sei como é doloroso atravessar tudo isso sentindo que ninguém entende. Nenhuma pessoa deveria descobrir essa doença tarde demais.

Nenhuma mulher deveria passar por perdas sem ao menos saber que existe uma possível causa. Nenhum paciente deveria sentir que sua dor é pequena só porque ela não aparece por fora. A trombofilia pode atingir o sangue. Mas, muitas vezes, é o emocional que fica mais ferido.

E talvez a maior luta de quem convive com essa condição seja justamente essa: continuar vivendo normalmente enquanto carrega medos que quase ninguém consegue enxergar.

Por – Gracciene Farias

Presidente do Instituto Brasileiro de Trombofilia- IBT.

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